Recicla

Fátima Lopes: “O planeta é a nossa primeira casa”

A apresentadora Fátima Lopes é defensora dos três ‘R’, recicla tudo, tem um ecoponto próprio, reduz, reflete nos produtos a adquirir, e, juntamente com os filhos, reaproveita e reutiliza tudo o que pode, de forma a prolongar a vida dos materiais.

Considera que é simples ter uma vida sustentável?
Ter uma vida sustentável não é tão complicado como as pessoas muitas vezes julgam. É claro que há coisas que nós não conseguimos fazer. Por exemplo, eu em Lisboa tenho alguma dificuldade em reaproveitar os desperdícios alimentares. Porquê? Porque os locais apropriados para fazer compostagem não são muito acessíveis. Não temos locais para depositar os alimentos para fazer compostagem com a mesma facilidade que temos onde colocar toda a separação de embalagens. Há coisas que, efetivamente, ainda não são fáceis, porque ainda não estão organizadas nesse sentido. Mas, há muitas outras coisas que são possíveis e não são complicadas. Nós podemos ganhar esses hábitos sustentáveis. É como educar uma criança. Se, de pequeninos, os educarmos a não desperdiçar água, tomar banhos rápidos, reaproveitar tudo, ir às compras e levar o saquinho de pano, etc., isto passa a ser o normal para eles e, na verdade, depois nem saberão funcionar de outra maneira. Portanto, não é complicado, é simples, é só questão de queremos.

Quais são os hábitos sustentáveis que adota diariamente?
Eu sou muito criteriosa com o gasto da água, ou seja, os banhos são rápidos, nada de estar a ensaboar com a torneira a correr. Sempre que me é possível compro sabonetes e champôs que sejam amigos do ambiente, porque sei que têm menos substâncias nocivas. Depois, aqui em casa, dificilmente se deita fora alguma coisa que não tenha uma segunda ou uma terceira vidas, porque já é maneira de funcionar. Isto é válido para a roupa, é válido para as mobílias. Tudo tem uma segunda vida e quando já não vemos o que fazer com isso procuramos sempre saber se alguém quer, para lhe dar continuidade.
Para as idas às compras, eu tenho um carrinho com rodas e consigo colocar lá dentro tudo. Tenho o hábito de ter muitos sacos de pano comigo. Evito ao máximo os plásticos, as mil e uma embalagens e procuro também supermercados que já tenham vendas a granel, porque não se compra aquilo que não é preciso, compra-se só a quantidade exata.
Eu reaproveito frascos e todas as coisas com as quais eu possa fazer alguma coisa. Na minha casa de banho, por exemplo, os meus cremes estão todos em caixas de madeira que eu aproveitei. Às vezes, construímos peças de mobiliário para a minha casa no Alentejo com madeiras antigas, madeiras velhas. Eu compro os produtos necessários, trato-os e dou-lhes uma nova vida.

Faz a separação das embalagens? Há quanto tempo?
Faço a separação das embalagens há tantos anos que já não me lembro, mas faço de tudo: de embalagens de plástico, papel, vidro, pilhas, cápsulas de café, o material elétrico e o óleo utilizado também coloco num garrafão que tenho à parte e depois vou depositar no oleão. Eu separo tudo o que eu sei que tem um depósito específico.


Qual a importância que atribui à reciclagem?
A reciclagem é fundamental, porque, se não separamos o lixo, já estamos a atrapalhar o processo de podermos reaproveitar as coisas e de as reciclar. A ideia de reciclar quer dizer dar uma nova vida, dar uma nova utilização. Existem até marcas que nasceram a partir desta reciclagem, marcas de várias áreas, por exemplo, de sapatos, ténis feitos com plástico que foi retirado dos mares. Existem muitos produtos que nascem a partir do que é reciclado. Se nós sabemos que tendo boas práticas ambientais podemos dar uma segunda ou uma terceira vida às coisas, porquê colocá-las no sítio errado? Porque amanhã não vamos estar cá? Eu acho isso assustador. Eu acho assustador, porque o planeta é nossa primeira casa.

Na sua opinião, qual é o principal erro que as pessoas cometem do ponto de vista ambiental?
Há muitos erros que as pessoas cometem do ponto de vista ambiental. Primeiro, eu tenho um profundo respeito pela água. Talvez porque vivi em África e ficávamos muitas vezes sem água e passávamos dias a fio a abrir a torneira sem sair uma gota. As pessoas não têm. Por exemplo, tenho amigos que têm o hábito ter a torneira da cozinha aberta enquanto estão a lavar. Eu chego lá e aquilo enfurece-me, desligo a torneira e digo ‘não faças isso. Coloca numa bacia a quantidade de água que tu precisas para lavar uma alface’. Esta é uma das questões, as pessoas desprezam a água, porque a têm como um dado adquirido. Outro dos erros é achar que não vale a pena fazer uma separação do lixo assim muito criteriosa. Separa-se umas coisinhas para a consciência não pesar muito. Não. Separar é separar. Se tenho uma embalagem que tem um pedaço de cartão e tem um pedaço de plástico, eu desfragmento essa embalagem, ponho o plástico no plástico e o cartão no cartão. Portanto, não sejam falsos ambientalistas. Façam as coisas com rigor, com a seriedade que o planeta exige. Há pouco essa responsabilidade. Outra questão que também me preocupa são os comportamentos fora de casa. Como se quando sai de nossa casa pouco importa o que fazemos, porque não é a nossa casa. Por exemplo, vão para a praia e deixam tudo e mais alguma coisa no areal: enterram as beatas, fazem um buraquinho para pôr a embalagem de iogurte porque não querem ter trabalho de ir ao caixote que está a alguns metros. E, portanto, as nossas praias invadem-se de lixo que, em última instância, não custa trazer para casa.

No seu blogue, Simply Flow, que assinala agora quatro anos, sente que a necessidade de falar sobre questões de sustentabilidade e preocupações com o planeta aumentaram? Porquê?
Sim, olhando para trás percebo que, com o tempo, houve um crescente interesse das pessoas pelas questões da sustentabilidade e do ambiente. À medida que me fui apercebendo disso fui introduzindo estes temas cada vez mais na plataforma, indo buscar mais especialistas, mais associações, mais pessoas que ajudassem a pensar estas questões e a adesão tem sido muito interessante. O que mostra que as pessoas, efetivamente, estão aos poucos a perceber que esta é uma questão fundamental.

E se tivesse um programa sobre sustentabilidade, como se chamava e quem reuniria em estúdio?
Se eu tivesse um programa de sustentabilidade chamar-se-ia “O planeta és tu” e os convidados seriam não só as associações que trabalham nesta área, mas também representantes de câmaras municipais, para saber o que localmente está a ser feito; governantes, para que ficassem claras as medidas que estavam a ser implementadas e para que existisse um comprometimento com essas mesmas medidas; convidava também estudantes e alunos de várias idades para que dessem a sua visão sobre estes temas; convidava biólogos, especialistas na área ambiental, porque são pessoas que têm sempre muito para nos ensinar.