Recicla

Videiras com mais vida

Após sete anos de investigação, o Projecto Da_Vide entra numa nova fase, a da industrialização. O objetivo, para já, é produzir canetas e outros produtos para escritório a partir dos resíduos da videira, ou seja, de origem orgânica e por isso biodegradáveis

Há cerca de sete anos, Pedro Teixeira saiu do Porto para ir viver para a bonita zona de Peso da Régua, no Douro. A casa estava rodeada de vinhas e um dia, por altura das podas, deparou-se com os molhos de sobrantes agrícolas, nomeadamente da videira, ou “vides”, cujo destino era a queima. “A primeira questão que me surgiu foi que, ao queimar todos aqueles resíduos, estávamos a produzir CO2 em grandes quantidades”, começa por contar o investigador que, desde aí, não mais parou de idealizar um projeto a que deu o nome de Da_Vide (das vides, da videira). Assim nasceu um modelo de valorização tecnológica de resíduos agrícolas e florestais que não só pretende pensar a sustentabilidade ambiental como também o desenvolvimento rural, com capacidade para gerar emprego e dinamizar o setor da agricultura.

DE CANETAS A ELETRICIDADE
Durante estes anos, Pedro Teixeira foi desenvolvendo e testando produtos e aplicações a partir das vides, como papel, tintas, mobiliário, peças de artesanato, entre outros, com destaque para as canetas que têm vindo a fazer muito sucesso e que deu origem ao movimento “Vamos escrever o mundo… sem plástico”. “Quisemos ir ganhando um conjunto de conhecimentos e competências que pudessem transformar-se em produtos extraordinários. Entretanto, conseguimos produzir uma substância parecida com plástico mas que não deixa de ser madeira e, com ela, obter uma esferográfica que pode durar mais de 20 anos”, acrescenta.

Agora, o processo está a passar por uma fase de industrialização que permita ao projeto massificar-se. As canetas Da_Vide estão em vias de poder ser encontradas à venda em hipermercados, já com outros produtos no horizonte, numa primeira fase destinados a escritório, como canetas com tampa, copos para canetas, bandejas para papéis, e até, entre outros, uma caneta cuja carga, embora de plástico, possa ser recarregada. “A caneta que está a ser desenvolvida para as grandes superfícies tem a parte exterior completamente de videira. Quanto à carga, a ideia é que quando a tinta acabar possa ser trocada por uma carga cheia e a vazia ser recarregada. Em termos práticos, uma carga pode durar uma vida. Tudo isto representa uma redução de plástico, e de produção de CO2, absolutamente  brutal”, explica Pedro Teixeira, enquanto exemplifica: “por cada 2000 canetas poupamos 400 quilos de plástico e mais de 400 kg de CO2”. E remata: “Defendemos que se os sobrantes agrícolas e florestais são o ‘ouro’ do nosso modelo de desenvolvimento não vamos queimá-los mas sim valorizá-los, produzindo produtos que têm uma biodegradação rápida na natureza e por isso não são contaminantes”. Além disso, garante o investigador, se quisermos, “até eletricidade podemos obter a partir destes resíduos”.